domingo, dezembro 14, 2008

Os amigos e a bailarina

Eram dois amigos inseparáveis. Conheciam-se desde crianças e mantinham laços indestrutíveis de amizade e carinho. Certo dia conheceram juntos uma bailarina.
Que mulher aquela! Não só era amável como lindíssima e cativante. Nunca tinham visto uns olhos tão expressivos e de uma tão apelativa cor de âmbar como os dela.
Chegara numa caravana. Quando aos amigos a viram rodopiar à sua frente com a flexibilidade de um lírio e a energia de uma torrente, apaixonaram-se de imediato por aquela jovem fascinante.
Os dois amavam-na e estavam encantados com a jovem. Ela entregava-se a ambos com a mesma ternura e paixão. Passaram semanas e um dia um amigo disse ao outro:
- Vivo atormentado pela ideia de um dia podermos ficar sem ela.
- Mais cedo ou mais tarde, todos ficaremos sem aquilo que temos.
Repôs com serenidade o amigo.

Passaram-se meses. Os amigos mantinham uma relação perfeita com a sugestiva bailarina. Aos amanheceres sucediam-se os entardeceres. Numa luminosa manhã estival, a mulher disse aos jovens que recebera um telegrama a anunciar-lhe que tinha trabalho como bailarina noutro país, e que devia partir para poder continuar a dançar para outras gentes.
Fundiu-se num abraço de despedida cálido e afectuoso com os jovens apaixonados. Após a despedida, a bailarina partiu.
Então um dos amigos disse:
- Reparas-te? Vivia atormentado porque um dia podíamos perde-la, e assim aconteceu. Agora estou verdadeiramente desolado. Que sentido tem a minha vida? Não, não conseguirei viver sem ela. E tu como te sentes?
O amigo responder com serenidade:
- Eu? Óptimo, muito bem.
- Mas como é possível? Acabas de perder uma mulher maravilhosa.
- Pensa um pouco comigo. Antes dela ter aparecido na minha vida eu sentia-me muito bem. Ela foi um belo presente do destino. Veio e desfrutei-a intensamente cada instante. Enquanto esteve cá, nem por um momento, um só que fosse, deixei de senti-la e vive-la no mais profundo de mim. Ela partiu e eu continuo a estar como estava antes que ela chegasse, ou seja, muito bem. Bem estava antes que chegasse, bem enquanto ela esteve aqui, e bem estou agora que partiu. Se estou bem comigo mesmo, poderia ser de alguma outra maneira? O destino trouxe-a; O destino levou-a.
E eu sinto-me muito bem.
Quando tivermos superado as nossas carências emocionais e os nossos vazios de solidão e estivermos completos em nós mesmo, não criaremos laços de dependência, e podemos desfrutar intensamente da relação de afecto sem estarmos subjugados e, ao mesmo tempo, sentindo-nos equilibrados e em harmonia.

In: "Contos espirituais do Oriente" - Ramiro Calle

3 comentários:

João disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Faust Sotam disse...

A indepedência de tudo sejam afectos,objectos,desaires,amores destruídos, é um estado de Harmonia com o seu íntimo,de conhecer-te a si mesmo, e conhecer os outros ainda melhor.A independência p´ra mim é no fundo Liberdade.Ser livre de apegos.

Anónimo disse...

Gostei desta lição de vida.
Por vezes é preciso ler para acreditar o que os olhos nao querem ver. :)
Obrigado
Ana