domingo, julho 09, 2006

Amor...quebrando os mitos... (Paulo Coelho 8)

“- Quero falar de um outro tipo de amor – insistiu. – Aquele que um homem e uma mulher compartilham e onde também se manifestam milagres.
Segurei as mãos dele. Ele podia conhecer os grandes mistérios da Deusa – mas de amor sabia tanto quanto eu. Apesar de ter viajado tanto.
E$ tinha que pagar um preço: a iniciativa. Porque a mulher paga o preço mais alto: a entrega.
Ficámos de mãos dadas por um longo tempo. Eu lia nos olhos dele os medos ancestrais que o verdadeiro amor coloca como provas a serem vencidas (...).
Eu lia nos olhos dele as milhares de vezes que tinha imaginado este momento, os cenários que tinha construido em nosso redor, o cabelo que eu deveria estar a usar e a cor da minha roupa. Eu queria dizer “sim”, que ele seria bem-vindo, que o meu coração tinha vencido a batalha. Eu queria dizer o quanto o amava, o quanto o desejava naquele momento.
Mas continuei em silêncio. Assisti como se fosse um sonho, à sua luta interior. Vi que tinha diante dele o meu “não”, o medo de me perder, as palavras duras que ouviu em momentos semelhantes da sua vida – porque todos nós passamos por isso, e acumulamos cicatrizes.
Os seus olhos começaram a brilhar. Sabia que ele estava a vencer todas aquelas barreiras.
Então soltei uma das mãos, peguei num copo e coloquei-o na borda da mesa.
- Vai cair – disse ele.
- Exacto. Quero que tu o derrubes.
- Partir um copo?
Sim, partir um copo. Um gesto aparentemente simples, mas que envolvia pavores que nunca chegaremos a perceber. O que há de errado em partir um copo barato – quando todos nós ja o fizemos, sem querer, pelo menos uma vez na vida?
- Partir um copo? Repetiu ele. – Porquê?
- Posso dar algumas explicações – respondi. – Mas, na verdade, é apenas por partir.
- Por ti?
- Claro que não.
Ele olhava para o copo de vidro na borda da mesa – preocupado com que caisse.
“É um ritual de passagem, como tu mesmo dizes”, tive vontade de dizer. “É proibido. Copos não se partem de propósito. Quando entramos em restaurantes ou nas nossas casas, temos cuidado para que os copos não fiquem na borda das coisas. O nosso universo exige que tomemos cuidado para que os copos não caiam no chão.”
No entanto, continuei a pensar, quando os partimos sem querer, vemos que não foi tão grave assim. O empregado diz “não tem importância” e nunca na minha vida vi os copos partidos serem incluidos na conta de um restaurante.. Partir copos faz parte da vida e não causamos dnos a nós próprios, ao restaurante, ou ao próximo.
Eu dei um empurrão à mesa. O copo balançou mas não caiu.
- Cuidado! – disse ele, instintivamente.
- Parte o copo – insisti eu.
Parte o copo, pensava comigo mesma, porque é um gesto simbólico. Procura entender que eu parti dentro de mim coisas muito mais importantes que um copo e estou feliz por isso. Olha para a tua própria luta interior e parte esse copo.
Porque, os nossos pais ensinaram-nos a ter cuidado com os copos e com os corpos. Ensinaram-nos que as paixões de infância são impossíveis, que não devemos afastar os homens do sacerdócio, que as pessoas não fazem milagres e que ninguém vai em viagem sem saber para onde vai.
Parte esse copo, por favor – e liberta-nos de todos esses malditos conceitos, essa mania que se tem de explicar tudo e só fazer aquilo que os outros aprovam.
Parte esse copo – pedi mais uma vez.
Ele fixou os seus olhos nos meus. Depois, devagar, deslizou a sua mão pelo tampo da mesa, até tocá-lo. Num movimento rápido, empurrou-o para o chão.
(..)
- Não tem importância – gritou o rapaz que atendia às mesas.
Mas ele não ouviu. Tinha-se levantado, agarrara-me os cabelos e beijava-me.
(...) Naquele minuto de beijo estavam anos de busca, de desilusões, de sonhos impossíveis.”

In Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei, Paulo Coelho

Sem comentários: